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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Economia criativa: ideias que valem ouro

 

 Se no passado recente o que fazia girar a economia eram parques industriais gigantescos, com capital investido em máquinas e funcionários e produção contada em milhares de produtos, hoje existe um vasto mercado em que as ideias geniais valem dinheiro. Essa é a base do conceito da economia criativa, que ganha força no Brasil e será um dos temas discutidos na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, de 13 a 22 deste mês. Segundo dados das Nações Unidas, 8% do PIB mundial é gerado por negócios em torno de música, literatura, design, moda, desenvolvimento de softwares, artesanato. Esse patrimônio cultural é chamado de intangível, mas os ganhos obtidos por meio dele são bem concretos.

Que o diga Steve Jobs, fundador da Apple, que chegou a faturar quase 26 bilhões de dólares. Da mesma forma, o garoto americano Mark Zuckerberg criou há oito anos o Facebook, a maior rede social do mundo; sua empresa virtual está avaliada em cerca de 100 bilhões de dólares! Negócios como esses e toda a discussão sobre direitos de propriedade intelectual foram "previstos" pelo economista inglês John Hawkins, autor de The Creative Economy - How People Make Money from Ideas (A economia criativa - como as pessoas ganham dinheiro com ideias), de 2001, um dos primeiros livros sobre o assunto.

No Brasil, também são muitos os exemplos de pessoas criativas à frente de negócios rentáveis e marcas reconhecidas mundialmente pela qualidade e originalidade. Quando o chef Alex Atala - cujo restaurante, o D.O.M., acaba de ser eleito o quarto melhor do mundo - tempera seus pratos com priprioca, um tipo de capim da Amazônia, ele está fazendo economia criativa. "O elo entre natureza e cultura é a comida. É preciso cozinhar e comer como cidadão", costuma dizer ele, que desbravou a culinária nacional viajando pelos sertões e conhecendo as comunidades que produzem os ingredientes empregados em suas criações gastronômicas. Assim chamou a atenção para si mesmo, para o país e gerou renda para centenas de pessoas, que permanecem em seus lugares de origem. Quem vai a seu restaurante, em São Paulo, vive uma experiência única, e esse fator, tão subjetivo, também gera concretamente dinheiro, emprego e oportunidade para todos os envolvidos.

"A economia criativa valoriza mais o processo do que o produto", sintetiza Claudia Leitão, que está à frente da recém-criada Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura (Minc). "São prioridades a inclusão e a cooperação. A criatividade brasileira, embora impalpável, é uma das nossas maiores riquezas e pode ser um caminho para o desenvolvimento do país e de todos os envolvidos. Um exemplo: do Oiapoque ao Chuí, as brasileiras bordam. Uma de nossas missões é desenvolver políticas públicas que estimulem e organizem a produção e a comercialização do bordado, para sustento dos autores e também para projetar nossa cultura", diz ela.

Alguns visionários perceberam esse tesouro e fizeram dele matéria-prima de suas produções notáveis. Um dos pioneiros foi o artista plástico Renato Imbroisi, que, há mais de 30 anos, cria peças incluindo no processo artesãs têxteis de Muquém, pequeno município de Minas Gerais. Seu trabalho é reconhecido na Europa, na África e no Japão. Também é o caso da designer de joias e bijoux Mary Arantes, nascida no Vale do Jequitinhonha; sua marca, Mary Design, emprega artesãos de vários lugares, orientados por ela. A jovem Mana Bernardes, artista plástica carioca cujas joias feitas com material reciclado foram premiadas aqui e no exterior, acredita que para o designer não basta criar. "É ele quem também desenha a forma de trabalhar e o desenvolvimento das pessoas, respeitando potencialidades individuais e conectando pontos em comum. Isso é economia criativa", define ela.

Com políticas públicas eficientes, esses e outros criadores poderiam fazer mais e incluir mais gente e mais conhecimento em suas obras. "Ocorre que a economia criativa por aqui ainda é incipiente", afirma Rubens Ricupero, economista, diplomata e representante permanente do Brasil na ONU. Ele acredita que o novo modelo contribui para o desenvolvimento, mas não trata o assunto com euforia. As nações com melhor educação, como Austrália (onde surgiu o conceito, na década de 1990) e Inglaterra, têm mais chance de produzir ideias geniais e mantê-las rentáveis, mesmo porque o governo facilita a produção e isenta de impostos os produtos do entretenimento. Já nos países pobres e emergentes, a realidade é outra.
 "Eu estava na ONU quando esse conceito começou a ser transposto para outros países, em 2000. A ideia era principalmente fazer com que a música gerasse renda na Jamaica e em Cuba, onde há muitos talentos, mas ganha-se pouco com isso; os melhores músicos acabam deixando seus lugares de origem. O Brasil, porém, tem potencial para incrementar a indústria do entretenimento. Basta ver nossa experiência bem-sucedida da exportação de novelas", lembra o economista. Em 2011, as tramas globais tiveram faturamento recorde: 11 bilhões de reais, quase dez vezes mais do que o total investido pelo Minc em projetos culturais.

O Brasil vive um bom momento para que os talentos e novos negócios desabrochem. Entre 2005 e 2011, as despesas com lazer aumentaram 40,7%, como mostra uma pesquisa da Cetelem-BGN, empresa que analisa perfis do consumidor brasileiro. O novo cenário nacional, com crescimento da classe média e mais acesso a bens materiais e culturais, estimulou o nascimento de novas empresas, como a XYZ Live. Criada pelo Grupo ABC, do publicitário Nizan Guanaes, a companhia surgiu em abril do ano passado e realizou megashows de Eric Clapton, Iron Maiden e Shakira, além de eventos esportivos, como o X-Fighters. A expectativa é atingir a receita de 600 milhões de reais até 2015. No Rio de Janeiro, o site queremos.com.br, criado por jovens apaixonados por música, capta recursos para realizar shows de bandas que, sem essa iniciativa, não chegariam à cidade - por exemplo: James Blake, Little Dragon, Mogwai. Eles calculam os custos de produção e, por meio das redes sociais, arrecadam o dinheiro e vendem os ingressos, tudo virtualmente. A cidade também ganha com isso, pois incrementa o lazer e atrai turistas.

AS CIDADES INOVADORAS
Iniciativas como essa, aliás, podem transformar uma cidade comum numa cidade criativa, outro conceito que promete bombar na Rio+20. A economista e administradora Ana Carla Fonseca Reis, organizadora do livro Cidades Criativas, Perspectivas (Câmara Brasileira do Livro), em parceria com Peter Kageyama, explica: "A conexão entre os bairros e os moradores de diferentes lugares, a inovação que essa pluralidade é capaz de gerar e as expressões culturais caracterizam uma cidade considerada criativa". Isso vai além de ter uma agenda cultural ativa e ser um polo turístico; trata-se de um lugar com soluções inovadoras para problemas urbanos. "Um exemplo é o bairro do Candeal, em Salvador, que era uma área muito vulnerável antes dos projetos sociais implantados por Carlinhos Brown para ensinar música a crianças e jovens. O trabalho chamou a atenção das autoridades e levou para lá água encanada, saneamento, luz; a escola melhorou. A cultura pode contribuir para oferecer mais qualidade de vida", cita a secretária Claudia
Leitão. Outro exemplo é Paraty, que há dez anos afastou o fantasma da decadência e atraiu os olhos do mundo ao realizar a Festa Literária de Paraty, a Flip.

LIBERDADE = AUTOESTIMA
A economia criativa propõe também uma mudança de mentalidade e começa a derrubar crenças arraigadas. A primeira é de que cultura é gasto, não investimento. A segunda, de que arte e dinheiro não se misturam ou que gente criativa é incompetente para lidar com o lado prático da vida. Hoje não basta dirigir o seu filme, tocar bem, produzir um disco ou simplesmente publicar livros: cada vez mais, os autores são convocados a administrar seus recursos, controlar suas produções e divulgar suas obras. Esse é o tempo da simultaneidade, de assumir várias funções para ganhar fãs, leitores, espectadores, territórios - enfim, cumprir o fluxo produtivo completo, com domínio do processo e mais autonomia. Isso também é um aspecto do desenvolvimento. Como apontou Amartya Sen, economista indiano que ganhou o Prêmio Nobel em 1998, "desenvolvimento é criação de liberdades". Tradução: um país desenvolvido não é só aquele que tem índices altos de crescimento, mas o que gera cidadãos capazes de tomar as próprias decisões. Essa capacidade de autogerenciamento e a possibilidade de fazer o que se gosta tendo a sobrevivência garantida influem na autoestima de um povo. "Trazem realização, dignidade e geram menos injustiça. Somos favorecidos pela nossa diversidade", diz Claudia Leitão, que estima um prazo de 20 anos para sentirmos os efeitos dessa transformação de corações, mentes - e bolsos.

Fonte: Planeta Sustentável

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Para Refletir


O Melhor de Você Dê sempre o melhor.E o melhor virá...
Às vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas...
Perdoe-as assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta e interesseiro...
Seja gentil assim mesmo.
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros...
Vença assim mesmo.
Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo...
Seja honesto e franco assim mesmo.
O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra...
Construa assim mesmo.
Se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja...
Seja feliz assim mesmo.
O bem que você faz hoje pode ser esquecido amanhã...
Faça o bem assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante...
Dê o melhor de você assim mesmo.
E veja você que, no final das contas...É entre VOCÊ e DEUS...Nunca foi entre você e eles!
Paz e Bem!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Texto- Educação um modelo antigo!

Imagine que um cidadão tivesse dormido um século e acordasse em pleno século XXI. O mundo seria uma grande surpresa para ele: aviões, celulares, arranha-céus. Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que é uma televisão ou um computador. Poderia maravilhar-se com uma barra de chocolate, escandalizar-se com os biquínis das moças, perder-se num shopping center. Mas, quando ele se deparasse com uma escola, finalmente teria uma sensação de tranquilidade. “Ah, Isso eu conheço!”, pensaria ao ver um professor com um giz na mão em frente de vários alunos de cadernos abertos. “É igualzinho à escola que eu frequentei” (Revista Época - Nº 466, pág. 90).

Esta é uma história contada nos cursos de qualificação para professores, com a finalidade de mostrar que, enquanto o mundo ao nosso redor muda, em grande velocidade, a escola conserva um modelo antigo e que evolui muito pouco diante das nossas necessidades. Podemos ver alguns exemplos disto nesta reportagem da revista Época. Ela traz informações a respeito de mudanças sociais e econômicas que têm acontecido nas últimas décadas e que exigem uma reformulação da educação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“A ciência do peixe”


Era uma vez um pescador chamado João Firmino, mais conhecido como Seu Firmino, o pescador. Morava numa comunidade, às margens de um belo rio com um bom volume de água e boa extensão. Desse rio, ele tirava não só o alimento de todos os dias para si e sua família, como também vendia os peixes para garantir a sobrevivência deles. Seu Firmino era casado com D. Juvanete e tinha uma filhinha chamada Jandira. Viviam de forma simples e nada lhes faltava. Porém, sentia-se bastante intrigado com algo que sua esposa fazia há dez anos, desde o início de seu casamento, mas nunca teve coragem para perguntar-lhe o porquê de tal prática. O mais interessante de tudo isto é que ao ouvir essa história pela primeira vez, lembrei-me de vários momentos (na escola) em que estive diante de uma pessoa com quem convivia há algum tempo (o professor) e, mesmo com uma boa relação, ainda pensava duas vezes antes de perguntar-lhe algo.
Você já passou por isto? O que nos leva a evitar uma pergunta ao professor? É claro que nem todas as pessoas passam por isto, mas esta é a realidade de muitos alunos. No meu caso, era vergonha. Tinha medo do que os outros iriam achar, pois não sabia se a minha pergunta era inteligente ou se demonstrava a minha falta de conhecimento sobre o assunto. Se você já passou por isto, pense no motivo que o impediu de perguntar. Retomemos a nossa história. Firmino tinha uma pergunta para fazer a sua esposa. Certo dia, na hora do almoço, ele olhou para a panela cheia de peixe cozido (todos cortados ao meio) e disse:
- Juzinha, minha filha, quero te perguntar uma coisa...
- Diga, Firmino
- Eu queria que você me explicasse a razão de preparar o peixe da mesma forma há dez anos?
- Como é? – questionou a esposa sem entender nada, olhando para Firmino.
- É que há dez anos você corta o peixe em duas bandas para cozinhá-lo. Sempre em duas bandas!!! Eu não entendo! Deve haver uma razão para isto, você muda o molho, mas sempre prepara o peixe da mesma forma, cortado ao meio!!!
- Haa! É isto?! É simples, Firmino. É a ciência do peixe.
- Como assim? Deve haver alguma explicação para isto!
- É como eu disse, é a ciência do peixe. A minha mãe me ensinou assim, e é assim que é feito.
- Não estou conformado!
Firmino então pegou o seu barco e desceu o rio. Foi até a casa da sogra em busca de uma resposta satisfatória. Ao chegar à casa da sogra, foi recebido por ela com um sorriso no rosto.
Firmino logo explicou-lhe o motivo da visita e ela, com outro sorriso, disse-lhe:
- Não acredito que você veio até aqui só para saber o porquê de o peixe ser cortado ao meio na hora de ser cozido!!!
- É isso mesmo, estou querendo muito saber. A senhora pode me responder?
- Claro!!! Aprendi isto ainda pequena. É muito simples, ele é cortado assim porque esta é a maneira que se faz , é a ciência do peixe.
Firmino quase engasgou e disse:
- Olhe, não quero saber de ciência alguma. Eu quero saber o porquê de o peixe sempre ficar cortado ao meio! Qual o MOTIVO?
- Olha, Firmino, esta é a ciência do peixe. Foi minha mãe que me ensinou, ela mostrou como se fazia e eu mostrei a minha filha. É assim que se faz, é a ciência do peixe!
Firmino não pensou duas vezes, pegou o barco e desceu o rio ao encontro da avó de sua esposa. Desta vez ele tinha certeza de que encontraria uma resposta satisfatória.
Ao chegar à casa da avó de sua esposa, a nobre senhora, conhecida como Dona Antiga, saiu e o atendeu. Mais uma vez ele narrou o acontecido e a senhora sorriu:
-  Não acredito que você veio aqui para isto!
- Sim, vim em busca de uma resposta. A senhora pode me explicar?
Nisto, ela respondeu algo que deixou Firmino mais intrigado.
- Não acredito que ainda fazem o peixe assim.
E Firmino respondeu assustado e surpreso:
- Como assim? O que a senhora quer dizer com isto?
- É que na minha época, meu filho, as panelas eram de barro e pequenas, então tínhamos que cortar o peixe ao meio para caber dentro delas, mas hoje não precisa porque as panelas são grandes.

Com isto, chega ao fim à busca de Firmino por uma resposta satisfatória.

Moral da história: Seja motivado em tudo que você faz, busque o aprendizado, o saber. É importante atentar que esta história nos mostra, de forma lúdica, que fazemos e aprendemos muitas coisas simplesmente sem saber o motivo de elas serem daquela forma e, sendo assim, surge a repetição, a cristalização e a perda da espontaneidade.

Gostou da história? Comente!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Você Sabia?


Efeito Estufa- Mocinho ou Bandido?


 Em geral, quando a expressão “efeito estufa” aparece em jornais ou revistas, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a do grande vilão responsável pelo aquecimento global. O roteiro dessa história, contudo, é bem diferente: na verdade, o efeito estufa é um fenômeno natural que mantém o planeta aquecido nos limites de temperatura necessários para a manutenção da vida- sem ele, a superfície terrestre seria simplesmente coberta pelo gelo.

O fenômeno ocorre graças a gases como carbono, que existem naturalmente na atmosfera e formam uma redoma protetora que impede a dissipação para o espaço de parte da radiação vinda do sol. É o aumento anormal desse “cobertor” atmosférico- fruto, sobretudo, da emissão de gases poluentes e da queima de florestas pelo homem- que provoca o aquecimento global.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A representação cartográfica dos fatos biogeográficos: sua importância e atualidade.

A representação cartográfica proporciona um recurso importante para a interpretação e compreensão do meio ambiente, onde representa e fornece dados seguros sobre determinados aspectos ambientais.
A dinâmica acelerada da ocupação de terras e da consequente organização do espaço exige registro cartográfico, principalmente nos países tropicais em desenvolvimento, onde estes fatos são muito importantes. As representações podem apresentar aspectos como: Cartas de inventario que representam levantamentos de formações vegetais, Cartas da dinâmica populacional que representam a expansão ou retração do espaço ocupado por apenas uma espécie ou toda uma geobiocenose, Cartas de vulnerabilidade que representam os parâmetros que devem ser respeitados, Cartas de impactos ou de alterações representam o grau de interferência antrópica e Cartas temáticas e/ou especiais representam determinado aspecto da biosfera. Com o avanço da tecnologia hoje temos a nosso alcance diferentes recursos e metodologias para a realização destas cartas. Temos imagens de satélite, de alta e baixa resolução, a seleção desta dependera do objeto, e as áreas de estudo têm cartas topográficas e fotografias aéreas.
A disposição destes recursos e a facilidade para a obtenção possibilitam um crescimento nesta área de conhecimento.

Autor: Claudson Santana

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Atafona: a cidade que está sendo engolida pelo mar

Conheça o município do norte-fluminense que sofre com forte erosão marinha e tem seu território diminuído a cada ano


 As imagens impressionam. Ruínas de hotéis, casas de luxo e de veraneio, comércio e até o batalhão de polícia, tudo destruído num raio de mais de cinco quilômetros de costa. Conforme a água avança, traz consigo a areia, que forma dunas onde antes havia quarteirões inteiros de residências e a avenida Atlântica – que já não existe na parte final da cidade.
Atafona, pacato distrito de São João da Barra, município do norte-fluminense, a 314 quilômetros do Rio de Janeiro, não sofreu o efeito devastador de um tsunami – como o que destruiu o nordeste do Japão no início de março. Mas as comparações são inevitáveis. O mar avança sobre a cidade desde os anos 70 e vem destruindo ruas inteiras.
 “As primeiras observações do processo erosivo foram há 40 anos. O problema foi se intensificando com a falta de pressão do volume de água do rio Paraíba do Sul, que corta a cidade a caminho do mar”, explica André Pinto, assessor de Planejamento e de Gestão Ambiental da prefeitura de São João da Barra. André também é guia de turismo, ciceroneando grupos de cientistas, estudantes e outros interessados em ver de perto as ruínas do que um dia foi o litoral de Atafona.
Com 30 mil moradores, a localidade, incluindo São João da Barra, tem um território de 432 quilômetros quadrados. A principal atividade econômica da região é a pesca. Mas o turismo tem “animado” os moradores. É cada vez maior o número de pessoas que procuram o lugar para conhecer de perto a ação da natureza na vida cotidiana da comunidade.
Segundo André, o distrito tem características peculiares que fazem com que ali sejam sentidas estas transformações mais drásticas. “A forte dinâmica das correntes marinhas, a formação geológica e por ser o ponto de tensão dos ventos vindos do nordeste, além da construção irregular nas faixas do rio e do mar, fazem com que Atafona viva este problema com tanta intensidade”, enumera o assessor de Gestão Ambiental.
A cidade tem cerca de cem casas notificadas pela Defesa Civil. “Uma parceria do Ministério Público estadual, Corpo de Bombeiros, Prefeitura e Defesa Civil permitiu que se agisse com eficiência, a partir de 2008. Devido ao avanço do mar, das ruínas da caixa d’agua da Cedae à foz do rio Paraíba do Sul, são diversas casas interditadas. A maioria delas, é bom frisar, é de veraneio”, explica Felício Medeiros, chefe da Defesa Civil municipal
Fim do mundo
Os destroços do que um dia foi parte da cidade hoje servem de fachadas para que igrejas profetizem o apocalipse. “Atafona é a primeira cidade a ver a chegada do fim do mundo”, diz Zélia Souza, que trabalha em um bar em frente à praia. O que sobrou do “hotel do Julinho” tem inscrições como “Jesus está vivo”, “Apocalipse – lembra-te do dia de sábado para o santificar”.
É em frente a uma dessas inscrições que um grupo de turistas, munidos de máquinas fotográficas, faz pose. Carmem Faria e Raquel Cansado estão na cidade pela segunda vez. “É impactante e ao mesmo tempo triste, desolador. Voltamos cinco anos depois para ver como o mar não para de avançar. Da última vez o hotel ainda estava de pé”, conta Carmem. “Só Deus para impedir que se repita aqui o que aconteceu no Japão”, completa Raquel, sem saber que as ondas no outro lado do mundo foram ocasionadas por choques nas placas tectônicas.
O tom apocalíptico também está na conversa com moradores mais antigos. No começo de fevereiro foi realizada a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, que percorreu a cidade até a praia de Atafona. Muitos creem que isso fez com que o mar recuasse alguns metros.
Para os técnicos, porém, a explicação é outra. Este recuo faz parte do processo erosivo. Desde 2008, tem se percebido este fenômeno inverso na cidade. O mar tem recuado, devolvendo faixas de areia que estavam submersas. Para o técnico ambiental Luis Henrique Araújo, que perdeu sua casa na última forte ressaca, isso não permite que a população se anime. “O mar recua e depois volta ainda mais forte. Não se pode construir novamente onde ele destruiu. São movimentos imprevisíveis”, diz.
Ruínas como ponto turístico
Conhecida como o “hotel do Julinho”, a ruína mais impactante da praia de Atafona virou ponto turístico. Construído pelo empresário Júlio Ferreira da Silva em 1973, o empreendimento também foi uma mercearia. O jornalista João Noronha, no livro “Uma Dama Chamada Atafona”, descreve o prédio como “o primeiro supermercado da cidade, dotado de bar, padaria e lanchonete”. Na parte superior, foram construídos 48 apartamentos com suítes em três andares. O prédio veio abaixo em abril de 2008, numa nova aproximação do mar. Ninguém se feriu. Meses antes a Defesa Civil Municipal havia interditado o local.
Os moradores mais antigos contam que, desde os anos 70, o mar avançou sobre cinco ruas, totalizando cerca de 500 casas. Isso equivale, pelos cálculos da prefeitura, a 40 campos de futebol. “O mar avança cerca de três metros por ano”, diz André Pinto. Tanto que o mar é proibido para o banho devido à presença de vergalhões e restos de construções escondidas sob as águas barrentas. A cor, aliás, em nada tem a ver com poluição – é pela vizinhança com o rio.
Ainda assim, surfistas se arriscam nas ondas do mar. Joedson Rosa da Silva diz não ter medo. “Já vi gente se machucando. Mas a água bate com força onde tem resto de construção, daí dá para ter uma noção de onde não se pode ir”, afirma.
Uma placa explicando o que acontece no litoral da cidade dá as informações para turistas que queiram se aprofundar no assunto. Detalhe: os textos são bilíngues, já se prevendo o interesse internacional.
Avenida Atlântica destruída
Margeando o litoral norte-fluminense, de Grussaí a Atafona, o melhor caminho é a avenida Atlântica. Mas quando se chega a Atafona... Cadê a avenida? Dunas tomam conta do asfalto que já cedeu em diversos pontos.
A destruição foi mais rápida do que o Google Maps, que ainda tem imagens aéreas da avenida. A areia avança rapidamente sobre casas. O 8º BPM (Batalhão de Polícia Militar), desativado em 2001, ainda resiste de pé. Residências próximas já foram abandonadas.
Chama a atenção o que sobrou da mansão de um rico usineiro do ramo sucroalcooleiro. O monte de pedras e pedaços de chão ainda com azulejos foi, até 2002, uma das casas mais imponentes da cidade. No livro de João Noronha, eis a descrição da casa: “O segundo (casarão), do usineiro do açúcar Aylton Damas dos Santos, na avenida Atlântica com vista espetacular para o oceano tinha seis suítes, salão de jantar, sala de TV, sala de café da manhã e living no primeiro piso, e cozinha, lavanderia, dois dormitórios para motoristas, sala para sauna, salão de jogos, despensa e depósito no subsolo, além de garagem para oito carros e casa de caseiros”.

Soluções para o êxodo
Nos últimos anos, várias soluções têm sido discutidas para tentar conter o avanço do mar. O professor Paulo Cesar Rosman, do Programa de Engenharia Oceânica da UFRJ, não descarta a construção de obras de engenharia costeira para proteger as propriedades ameaçadas, como quebra-mares e muros. Mas ressalta o alto custo e a possível ineficiência a longo prazo. “Seria bem mais econômico para o poder público desapropriar a região sob ataque das ondas que construir obras de proteção costeira. A área seria renaturalizada e viraria um parque com praia”, afirma.
Vários moradores já deixaram suas casas. São diversas propriedades com placas de “vende-se”. Michele de Meirelles oferece sua casa de dois quartos por R$ 8 mil. O muro do lado esquerdo da propriedade segura uma duna de areia prestes a entrar em seu quintal. “Quero me mudar o quanto antes. Mas não há quem compre”, diz a dona de casa.
Um novo rabisco de apocalipse “(Jesus está voltando”) já ocupa o muro. É sinal de que “ele” vem vindo. O mar.
Fonte: Portal IG

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aquecimento global revive sonho de navegação pelo Ártico


Encolhimento da área de gelo permitiu criar rotas de navegação que não existiam há dez anos
Aquecimento global cria rotas marítimas antes, intransponíveis

Enquanto contornava a ponta mais setentrional da Rússia em seu rebocador oceânico no verão do Hemisfério Norte, o capitão Vladimir V. Bozanov viu muitas morsas, bandos de belugas e, ao longe, alguns icebergs.
Uma coisa que não encontrou enquanto rebocava uma barcaça industrial durante 3.702 quilômetros através do Oceano Ártico foi gelo sólido impedindo o caminho ao longo da rota. Segundo ele, dez anos atrás, uma passagem sem gelo, mesmo no auge do verão, era excepcionalmente rara.
Porém, cientistas ambientais dizem que agora não existe dúvida de que o aquecimento global está encolhendo a calota de gelo do Ártico, abrindo novas vias marinhas e deixando as rotas anteriormente navegáveis perto da costa mais acessível durante mais meses do ano
Independentemente de quais forem as repercussões ambientais terríveis de gases de efeito estufas, empresas da Rússia e de outros países ao redor do Oceano Ártico estão explorando novas oportunidades comerciais trazidas pelo aquecimento.
As companhias petroleiras podem ser as mais prováveis beneficiárias, à medida que o encolhimento da calota polar abre mais leito marinho à exploração. A Exxon Mobil, gigante do petróleo, recentemente assinou um contrato extenso para perfurar o setor russo do Oceano Ártico.
Contudo, mais do que nunca, empresas de navegação, mineração e pesca também estão olhando para o norte.
O presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimsson, declarou numa conferência recente sobre navegação no Oceano Ártico realizada nesta cidade portuária russa perto do Círculo Ártico que era ''paradoxal que novas oportunidades surgissem para as nossas nações’' ao mesmo tempo em que a ameaça das emissões de carbono se ''torna iminente’'.
Enquanto isso, o primeiro-ministro russo, Vladimir V. Putin, deu apoio total às novas perspectivas comerciais no norte que está descongelando.
De acordo com ele, ''o Ártico é o atalho entre os maiores mercados da Europa e da região asiática banhada pelo Pacífico. É uma oportunidade excelente para otimizar os custos’'.
No último verão, um dos mais quentes no Ártico, um petroleiro estabeleceu um recorde de velocidade ao atravessar o Oceano Ártico em seis dias e meio, transportando uma carga de gás natural condensado. O recorde anterior era de oito dias.
Segundo os cientistas, nos últimos dez anos o tamanho médio da calota polar em setembro, época do ano em que é menor, tem sido cerca de dois terços da média das duas décadas anteriores. O Programa de Monitoramento e Avaliação do Ártico, grupo norueguês que estuda a região, prevê que dentro de 30 ou 40 anos o Oceano Ártico inteiro não terá gelo durante o verão.
Assim, planos comerciais estão sendo traçados para capitalizar as mudanças numa parte do mundo que durante boa parte da história da navegação era mais conhecida pelos sinistros registros finais nos diários de exploradores como Hugh Willoughby, da Inglaterra. Ele morreu junto com a tripulação em 1553 tentando navegar nesse atalho entre Europa e Ásia, conhecido como Passagem Nordeste.
Os russos, navegando perto da costa, usam a Passagem Nordeste há um século. Eles a abriram para a navegação internacional em 1991, após o fim da União Soviética. Contudo, só recentemente as empresas começaram a achar a rota rentável, à medida que o encolhimento da calota polar abriu caminhos mais distantes da costa – permitindo que grandes navios modernos, de maior calado, façam a viagem, eliminando dias de viagem e economizando combustível.
Em 2009, os dois primeiros cargueiros internacionais viajaram ao norte da Rússia indo da Europa à Ásia. Neste ano, até agora, 18 navios fizeram a travessia, praticamente sem gelo.
Entre as viagens houve um cruzeiro turístico pela Passagem Nordeste, o primeiro de todos, partindo de Murmansk e chegando a Anadyr, porto russo no Oceano Pacífico, do outro lado do Alasca, através do Mar de Bering.
''A viagem ofereceu atrações como estações polares russas abandonadas’', salientou a Aurora Expeditions, operadora australiana, no material de divulgação.
Em algumas rotas, a viagem acima da Rússia agora é competitiva em relação à passagem da Europa para a Ásia via Canal de Suez. A viagem de Roterdã a Yokohama, Japão, pela Passagem Nordeste, por exemplo, é quase 7.162 quilômetros mais curta do que a rota atualmente preferida por Suez, segundo o ministro russo dos transportes. (É claro, a rota ártica tem um caminho a percorrer antes de chegar as 18 mil embarcações anuais que atravessam o Canal de Suez.) No entanto, o uso principal da navegação pelo Oceano Ártico até agora tem sido dar apoio a outros setores que rumam para o norte, como mineração e perfuração de petróleo, segundo participantes da conferência russa.
A Tschudi, empresa de navegação norueguesa, comprou e botou para funcionar uma mina de ferro desativada no norte da Noruega para despachar minério para a China pela Passagem Nordeste. A viagem para Lianyungang, China, demorou 21 dias em 2010, comparados aos 37 dias geralmente exigidos para chegar ao país por Suez. Executivos da Tschudi estimam economizar US$ 300 mil por viagem.
''Pouquíssimas pessoas da comunidade de navegação conhecem essa rota’', disse Felix Tschudi, presidente da empresa, durante entrevista.
A mina de níquel e cobre da companhia russa Norilsk agora pode enviar seus metais pelo Oceano Ártico sem fretar quebradores de gelo, como no passado, economizando milhões de rublos para os acionistas. No noroeste do Alasca, a mina Red Dog, de chumbo e zinco, envia os minérios pelo Estreito de Bering, que está bem menos coalhado de gelo do que nas décadas passadas.
O escritório moscovita do Citigroup identificou cinco empresas russas bem posicionadas para se beneficiar do aquecimento global no norte, onde as temperaturas estão aumentando duas vezes mais rápido do que a média global.
Além da Norilsk, eles incluíram a Sovcomflot, empresa estatal de navegação e as duas maiores empresas de gás natural do país: Gazprom e Novatek. A quinta é a Rosneft, estatal de petróleo que firmou uma joint-venture com a Exxon Mobil para fazer perfurações no mar de Kara, parte do trecho russo do Oceano Ártico. A Rússia está reformando um estaleiro militar nos arredores de Arkhangelsk, que produzia submarinos nucleares para a União Soviética, para fabricar plataformas de exploração de gás e petróleo que suportem o gelo.
Para a indústria pesqueira internacional, o alvo é o chamado buraco da rosquinha do Oceano Ártico – os milhões de quilômetros quadrados no centro do oceano que estão além dos 322 quilômetros das zonas econômicas exclusivas das nações costeiras. Até 2000, o buraco da rosquinha passava o ano inteiro congelado. Agora, vastos trechos ao norte do Alasca e leste da Sibéria costumam ficar sem gelo no verão.
O espectro das nações famintas ao sul pescando na região agora navegável levou à edição de um relatório recente do Pew Environment Group alertando que, sem um novo conjunto de regras para a região, as populações de bacalhau do Ártico podem ser dizimadas.
Enquanto isso, como as banquisas de gelo ainda ameaçam a navegação mesmo na rotas marinhas de outra forma desimpedidas, autoridades dos Estados Unidos, Rússia e Noruega estão estudando o potencial comercial de reformar portos nos dois lados da Passagem Nordeste para transferir contêineres de cargueiros comuns para embarcações quebra-gelo que transitariam pelo Oceano Ártico, atendendo a Ásia, Canadá, a Costa Oeste dos Estados Unidos e a Europa.
Com esse plano, portos agora irremediavelmente remotos como Kirkenes, Noruega, ou Adak, Alasca, ao sul do Estreito de Bering, podem ser transformados em hubs logísticos frenéticos para a navegação ártica.
O vice-governador do Alasca, Mead Treadwell, foi um dos participantes da conferência russa. Ele observou que mercadorias no valor de quase US$ 1 bilhão passaram pelo Estreito de Bering ano passado.
''Os navios estão chegando’', ele disse.
Fonte: The New York Times
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